Ecosapiência

Reflexões contemporâneas

Archive for fevereiro 2010

Hoje eu comi um caqui

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Os caquis

Sim, hoje eu comi um caqui. É uma fruta bonita, com uma cor alaranjada que eu adoro. Mas existe algo que sempre me suscitou desconfiança. Não sei dizer o que é, talvez um energia diferente, um chacra vegetal que me é difícil. Não sei. Em portugal essas frutas são chamadas de dióspiros. Fruto do diospireiro. Um fruto com nome tão extravagante pode ser de difícil ingestão para um descendente de portugueses como eu. Quem sabe?

Lembro-me do meu amigo Mauricio, um costa riquenho pura vida que eu adoro. Assim que chegou no Brasil decidiu ir ao supermercado e comprar tomates e ovos, para uma omelete que o fizesse lembrar da terra mãe. Não conhecia dióspiros, ou caquis (confesso novamente que prefiro comer caquis a dióspiros) e os confundiu com tomates. Aliás, achou que eram uma variedade sul-americana de tomates, e preparou a omelete mais doce de todos os tempos. Não preciso dizer nada mais sobre a sua omelete dióspira. Não creio que ele tenha experimentado caquis novamente. Mas hoje eu comi um caqui. Não foi fácil. Após terminar senti uma boa sensação de missão cumprida.

Faço aniversário na última semana de março. Descobri que na cidade paulista de Itatiba eles têm uma festa chamada a festa do caqui – na última semana de março. Uma provocação. Festa do dióspiro! Festas assim, só conseguimos participar na base de muita cachaça. Cachaça “on the rocks”. Melhor fugir da cachaça de dióspiro que com certeza servem por lá. Uma garrafa de cachaça com um dióspiro se desintegrando em seu interior. Uma afronta.

Já cheguei a pensar que comer larvas de tenébrio fritas ou assadas seria melhor do que comer um caqui-dióspiro. Ainda não provei essas larvinhas, mas confesso que tenho menos repulsa. Ou tinha, pois hoje eu comi um caqui. Meus pais, minha esposa, sempre me incentivaram a isso.

Masaoka Shiki foi um poeta japonês do século retrasado. Ele dizia que queria ser lembrado como alguém que gostava de poesias e caquis. Eu adoro poesia. Mas ainda estou aprendendo a gostar de caquis. O próximo passo? Uma salada de caquis. Por incrível que pareça senti uma leve vontade de experimentar.

Ele gostava de caquis e poesia.

Uma salada de dióspiros

Written by newtonulhoa

22 de fevereiro de 2010 at 11:43

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Lex Parsimoniae

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A alguns meses enviei um artigo ao periódico científico “Biological Invasions”. Recebi um e-mail do editor, o ecólogo Daniel Simberloff, dando-me boas e más notícias. As boas é que se eu revisasse o artigo ele teria grandes chances de ser aceito. A não tão boa notícia é que estas revisões devem ser minuciosas. Um dos revisores sugeriu o uso mais amplo da “navalha de Occam”. Estranhei, pois nunca tinha escutado absolutamente nada sobre isso.

Depois de tentar entender o que seria isso, me apaixonei pelo princípio lógico da “navalha”. Também conhecida como lei da parcimônia, do latim “Lex Parsimoniae”, é resumida pela frase “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem“, ou seja, as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade.

Apesar destes preceitos serem utilizados desde os tempos de Aristóteles, sendo este um dos seus seguidores, o grande entusiasta de tudo isso foi William de Occam, um teólogo inglês do século XIV. Esse sujeito, para mim seria algo como o frade fransciscano e inglês Guillherme de Baskerville, personagem do romance de Humberto Eco, o nome da rosa (William de Occam também é chamado de Guilherme de Occam por muitos historiadores).

Guilherme de Baskerville e seu pupilo, Adzo.

De fato, sempre me interessou decidir pelos caminhos mais simples, mais curtos. E para a ciência da Ecologia, utilizar a navalha para decidir entre explicações para uma hipótese é uma ajuda e tanto. A natureza sempre vai decidir pelo caminho mais simples, dizem, e por isso, explicações muito confusas para uma observação da natureza são, utilizando-se a lógica, mais propensas a terem um lugar no fundo da gaveta.

Até os ateus utilizam a navalha para dizer que deus, se existisse como ser ultra racional, nunca faria um mundo tão complexo em 7 dias. Ai eu já não sei de nada. Só sei que o meu artigo ficou bem mais interessante sob os preceitos desta navalha. Inevitavelmente carregarei isso para toda a minha vida.

É isso que faz um cientista se destacar de outros. Colocar a epistemologia como um tempero a mais na mesa da ciência. Se eu pudesse, mas revisores são seres secretos, chamaria esse sujeito para uma cerveja. Deixaria a parcimônia de lado e discutiria o caos determinístico. Até cair no chão.

Written by newtonulhoa

6 de fevereiro de 2010 at 16:42

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Enigmática Brasília

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Brasília. Cidade dos automóveis. Da ausência enigmática de esquinas e botecos. Das praças infindáveis, cortadas por ruas infinitas. Do andar em círculo (ou em borboletas).

Viver em Brasília é viver "on the road". Kerouac não precisaria ter saído de Brasília para escrever seu best seller.

Brasília é como um mapa. Suas ruas, de pouca história, têm alma jovem. Entretanto é uma cidade de árvores. Paineras, ipês, sibipirunas. Árvores sem nome. Árvores do cerrado. Linhas retas que contrastam com árvores tortas e retorcidas – que dão vida ao mapa.

Ruas da Estrutural, a dez quilômetros do centro de Brasília. Foto: Valter Campanato/ABr

A necessidade de automóvel é um fato. Tudo é muito longe, muito amplo. Para mim, isso distancia as pessoas e apaga o frescor das árvores do plano piloto. Afinal, o plano é um oásis. Fora dali o que reina é a desolação de um deserto e a ausência calada de transporte público, já infeliz dentro do plano. As cidades satélite são mal administradas, com uma quantidade incrível de ruas de terra e influência religiosa.

Os shopping centers surgem como igrejas que confortam. Ali todas as pessoas estão alegres. Brasília, como um todo, sufoca. E o trânsito, que não existia (um orgulho para quem mora ali), já é infernal.

E em meio a tudo isso, as obras de Niemayer ganham mais força. Sem elas, Brasília já estaria morta.

Museu Nacional. Foto de Enéas Filho

Written by newtonulhoa

1 de fevereiro de 2010 at 16:47

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