Ecosapiência

Reflexões contemporâneas

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Autoretrato I

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Abaixo da linha quase reta do oceano
Repousa um monstro cartesiano.
Nele criou seus filhos, que o deixaram

Infinitos amores eclodiram destes mares
Alimentados por mariscos brilhantes e plásticos.
Muitos se acabaram

Os barcos miram a terra sem encostá-la.
Por toda a eternidade – um mar de vaidades!
Lagostas submergem em ácida lentidão

O mar corre pelos rios, subvertido
E foge, como fumaça de cachimbo, ao sinal das marés

Sinto o sal profundo fluir nas veias
Esqueço a sub-existência das ruas esquecidas pela vida

Me cubro de estrelas
Mergulho na sopa primordial de sonhos

No horizonte a chuva esconde as palavras
Sussuro. A luz é pouca e o som frio como vento
A língua dos deuses, coberta de areia

A alma se lança às águas profundas
Profusas cantigas de ninar chamam as jangadas
Perdidas no jogo confuso do mar

Eu sou o mar.

Avisto a costa arborizada, riscada de praias
Sinto as folhas mais altas de um coqueiro cochicharem

Ouço o cheiro do ar indo embora
Povoar a vila iluminada pela vida.

Vou consigo e boa sorte
Viagem segura
Viagem obtusa
Volto ao infinito em segundos (respirando com os músculos da barriga)

Sou o mar.

Que trafega pelos continentes nesta esfera castigada pelas gentes.
Que se reprime ao som da lua e do sol em conjunção
Soltando fagulhas nas fogueiras da aldeia

Eu sou o mar.

—- Agosto / 2009 —-

Written by newtonulhoa

2 de março de 2010 at 10:17

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